Uma língua perdida ganha cinco letras e fica mais perto de ser lida de novo
Pesquisadores na Turquia identificaram novas letras do sidético, idioma morto há dois mil anos, elevando seu alfabeto conhecido de 26 para 31 sinais.
Imagine encontrar cinco letras novas de um alfabeto que ninguém mais sabe ler. Foi o que aconteceu na antiga cidade de Side, na costa mediterrânea da Turquia, onde pesquisadores identificaram cinco caracteres inéditos do sidético, uma língua morta há cerca de dois mil anos. Com isso, o alfabeto conhecido do idioma chegou a 31 letras, um passo importante rumo à sua decifração.
Como se lê uma língua morta
O trabalho é liderado por Feriştah Alanyalı, da Universidade de Anadolu. As novas letras apareceram em inscrições bilíngues recém-escavadas no sítio, com textos de 30 a 40 linhas. São justamente os textos bilíngues, que trazem a mesma mensagem em grego e em sidético, que funcionam como uma espécie de pedra de Roseta, permitindo comparar e deduzir o som de cada sinal. O problema é a escassez: "A falta de inscrições e o fato de a maioria ter apenas uma ou duas linhas tornam a decifração difícil", explica Alanyalı. Por isso cada texto mais longo, como os agora encontrados, vale ouro.
O sidético é aparentado do lício e do cário, outras línguas antigas da Anatólia. E resistiu bastante: segundo Alanyalı, os habitantes de Side continuaram falando o idioma por cerca de 200 anos depois da conquista de Alexandre, o Grande, quando o grego já dominava a região, um sinal da força da cultura local. A pesquisa segue em curso, e um dos pontos em aberto é o próprio nome da cidade, que, pela leitura mais provável, significaria "romã", ainda assim uma hipótese, não uma certeza.
Por que isso importa no Brasil
A história de recuperar uma língua perdida ecoa um drama que o Brasil vive no presente, e do lado contrário do tempo. O país abriga mais de uma centena de línguas indígenas, muitas faladas por pouquíssimas pessoas e em risco real de desaparecer nas próximas décadas. Enquanto na Turquia linguistas juntam letra por letra para reconstruir um idioma que morreu há dois mil anos, aqui a corrida é para documentar, gravar e ensinar línguas que ainda estão vivas, antes que virem o próximo enigma. As duas pontas contam a mesma verdade: quando uma língua some, some com ela um jeito inteiro de enxergar o mundo.
Para entender o contexto
O sidético é uma língua da Antiguidade falada na cidade de Side, na costa sul da atual Turquia, e conhecida por poucas inscrições, a maioria em pedra. Ele pertence ao conjunto de línguas da Anatólia, região onde também se falavam o hitita e o luvita, que formam um ramo antigo da família indo-europeia.
Decifrar uma escrita pouco documentada é um trabalho lento, que depende de achar textos bilíngues ou de comparar sinais com línguas parentes. Cada letra identificada reduz a incerteza sobre como ler as inscrições, mas "se aproximar de decifrar" ainda não é o mesmo que ler todos os textos com segurança.
Termos úteis
- Língua da Anatólia: Grupo de línguas antigas da região da atual Turquia, muitas hoje extintas.
- Texto bilíngue: Inscrição que traz o mesmo conteúdo em duas línguas ou escritas, útil para decifrar uma delas.
- Indo-europeu: Família de línguas que inclui o português, o grego, o latim, o hindi e o inglês.
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