A assinatura de um mestre canteiro de 1305 emerge de um cemitério na Turquia
Numa lápide de 700 anos, restauradores acharam o nome do artesão que a esculpiu: "Mestre Muhammed, de Tabriz". E ele deixou sua marca num lugar que destoa dos colegas.
Quase tudo o que sobrou da Idade Média foi feito por mãos anônimas. Catedrais, túmulos, manuscritos: a esmagadora maioria dos artesãos trabalhou sem deixar o nome. Por isso, quando um deles assina a própria obra, é como se atravessasse sete séculos para se apresentar. Foi o que aconteceu num cemitério histórico no leste da Turquia.
Durante trabalhos de escavação e restauração no Cemitério Seljúcida de Gevaş, no distrito de mesmo nome na província de Van, pesquisadores identificaram uma nova inscrição numa das lápides. Ela traz a fórmula "Amel-i Üstad Muhammed el-Tebrizi", que se traduz como "obra do Mestre Muhammed de Tabriz". O nome revela não só quem esculpiu a peça, mas de onde ele veio: Tabriz, cidade do atual Irã, então um grande polo de arte e arquitetura do mundo islâmico. Um artesão que migrou para exercer seu ofício longe de casa.
Com essa descoberta, sobe para quatro o número de mestres canteiros cujas assinaturas já foram encontradas no cemitério. Mas Muhammed fez algo diferente dos outros três: enquanto eles assinavam no topo das lápides, ele escondeu sua marca no pé da pedra, uma pequena excentricidade que, séculos depois, diz algo sobre sua personalidade. A lápide em questão é datada de 1305. O cemitério, que abriga também o célebre mausoléu de Halime Hatun, é um dos conjuntos funerários seljúcidas mais importantes da Anatólia.
Por que isso importa no Brasil
A história do artesão anônimo que ganha nome é universal, e muito nossa. Boa parte do patrimônio colonial brasileiro, das igrejas barrocas de Minas aos santos esculpidos pelo interior, também foi feita por mãos que a história não registrou. Cada vez que uma restauração revela uma assinatura, um risco de autoria ou a marca de um ateliê, recuperamos não só uma obra, mas uma pessoa. É um lembrete de por que financiar restauro e pesquisa de acervos importa: não se trata de mexer em pedra velha, e sim de devolver nomes a quem construiu o mundo que herdamos.
Gostou? Receba as próximas.
As notícias internacionais que importam, em português, uma vez por semana.
Assinar a newsletter