Supervulcões: o que são, como se mede o tamanho de uma erupção e qual é o risco real
Um supervulcão não é um vulcão "maior": é um sistema capaz de erupções raríssimas e gigantescas. Entenda a escala usada para medi-las, os exemplos conhecidos e o que a ciência diz sobre monitoramento e perigo.
"Supervulcão" é uma palavra que rende filmes catástrofe e manchetes assustadoras. A ciência por trás é bem mais interessante, e menos apocalíptica do que o título sugere. Este guia explica o que a palavra significa, como se mede o tamanho de uma erupção e o que se sabe sobre o risco, incluindo o caso do vulcão Kikai, no Japão, que voltou ao noticiário recentemente.
O que é um supervulcão
O termo não é oficial na geologia, mas costuma designar vulcões que já tiveram, ou podem ter, erupções de magnitude 8 na escala de explosividade, as maiores conhecidas. Isso significa ejetar mais de mil quilômetros cúbicos de material, volume suficiente para cobrir regiões inteiras de cinzas. Em vez de um cone alto, o que sobra depois de uma dessas erupções costuma ser uma grande depressão chamada caldeira, formada quando o teto da câmara de magma desmorona.
A escala VEI
O tamanho das erupções é medido pelo Índice de Explosividade Vulcânica (VEI, na sigla em inglês), que vai de 0 a 8. É uma escala logarítmica, em que cada passo representa, grosso modo, uma erupção cerca de dez vezes maior em volume de material ejetado. Ela leva em conta o volume de material, a altura da coluna de cinzas e a duração.
- VEI 0 a 2: erupções pequenas e frequentes, comuns em vulcões ativos.
- VEI 3 a 4: erupções explosivas moderadas, que podem forçar evacuações.
- VEI 5 e 6: erupções muito grandes, com efeitos regionais e, às vezes, globais. A do Pinatubo, nas Filipinas, em 1991, foi de VEI 6 e resfriou levemente o planeta por cerca de um ou dois anos.
- VEI 7: erupções gigantescas, como a do Tambora, na Indonésia, em 1815, que levou ao chamado "ano sem verão" em 1816, no Hemisfério Norte.
- VEI 8: as supererupções.
Exemplos conhecidos
- Toba (Sumatra, Indonésia). Teve uma supererupção há cerca de 74 mil anos, uma das maiores dos últimos milhões de anos. O quanto ela afetou a humanidade da época é debatido.
- Yellowstone (Estados Unidos). O sistema teve três grandes erupções nos últimos dois milhões de anos, aproximadamente. Hoje é um dos vulcões mais monitorados do mundo.
- Campi Flegrei (Itália). Uma área vulcânica perto de Nápoles, com histórico de grandes erupções e atividade sísmica recente que mantém as autoridades em alerta.
- Taupō (Nova Zelândia). Teve uma grande erupção há cerca de 25 mil anos e outra, menor, na Antiguidade tardia.
- Kikai (Japão). A caldeira submersa teve uma erupção gigantesca há cerca de 7,3 mil anos, que afetou comunidades pré-históricas da região.
Como a ciência monitora esses sistemas
Vulcões de grande porte são acompanhados por várias frentes de observação:
- Sismógrafos detectam os pequenos tremores causados pela movimentação de magma e de fluidos.
- GPS e imagens de satélite medem se o solo está inflando ou se afundando, o que indica mudanças na pressão subterrânea.
- Análises de gases, como dióxido de enxofre e dióxido de carbono, indicam mudanças no sistema.
- Estudos geológicos e geofísicos, inclusive imagens do subsolo, mostram quanto magma há e em que estado se encontra.
Uma das descobertas mais discutidas dos últimos anos é que as grandes câmaras de magma não são "lagos de lava" prontos para explodir, mas, na maior parte do tempo, corpos de rocha quente e em grande parte sólida, com bolsões de magma líquido. Isso muda a forma de pensar sobre como e quando uma erupção gigante pode ocorrer.
Qual é o risco real
As supererupções são raríssimas, com intervalos que se medem em dezenas de milhares de anos ou mais, e as estimativas têm bastante incerteza. Isso quer dizer que, para uma pessoa e para qualquer geração, a probabilidade é muito baixa. Os serviços geológicos que monitoram, como o dos Estados Unidos para o caso de Yellowstone, descrevem a chance de uma supererupção em qualquer ano como extremamente pequena e não veem sinais de uma erupção desse tipo em andamento.
O que acontece com muito mais frequência são erupções menores, mas capazes de causar impacto real: fechamento de espaço aéreo, como na erupção do Eyjafjallajökull, na Islândia, em 2010, perdas agrícolas e evacuações. Em termos de gestão de risco, essas são as que mais exigem preparo.
E no Brasil?
O Brasil não tem vulcões ativos, e não há risco direto de erupção no território. O país pode, porém, sentir efeitos indiretos de grandes erupções distantes, como alterações no clima por aerossóis na atmosfera, impactos em cadeias de suprimento e interrupções no transporte aéreo.
Como ler uma manchete sobre supervulcões
- "Pode entrar em erupção" não é "vai entrar em erupção". Procure por probabilidade e prazo.
- Atividade sísmica não significa erupção iminente. Muitos sistemas têm tremores e deformação por décadas sem erupção.
- Veja o tipo de estudo. Pesquisas sobre o passado (como foi uma erupção antiga) não são previsões.
- Desconfie de datas e números exatos para algo que a geologia só consegue descrever em faixas de probabilidade.
Entender a escala e a raridade desses eventos permite acompanhar as notícias com interesse, sem pânico. Estudar erupções gigantes do passado, como a de Kikai, é justamente uma forma de se preparar melhor para o futuro.
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