Injeção contra o HIV, aplicada duas vezes por ano, traz esperança em Uganda, mas as doses são raras
O lenacapavir quase eliminou novas infecções em dois estudos com pessoas de alto risco. Em Mbarara, onde a taxa de HIV é de 10%, o estoque do país é de alguns milhares de doses.
O lenacapavir, da Gilead Sciences, é descrito pela reportagem da AP como "a única injeção do mundo, aplicada duas vezes por ano, para prevenir o HIV". Foi aprovado nos Estados Unidos em 2025 e, em dois estudos com pessoas de alto risco, quase eliminou novas infecções, com desempenho melhor que o das pílulas preventivas diárias, que as pessoas podem esquecer de tomar. Alguns especialistas o veem como a melhor opção depois de uma vacina, que ainda é necessária. Em Uganda, porém, as doses são escassas.
O país tem cerca de 1,5 milhão de pessoas vivendo com HIV, numa população de cerca de 45 milhões. Em Mbarara, a taxa é de 10%, o dobro da média nacional, segundo a pesquisa mais recente. O estoque de Uganda é de "alguns milhares" de doses, racionadas e enviadas a locais como Lira e Mbarara.
Quem está recebendo, e quanto
Os Estados Unidos e o Fundo Global querem comprar lenacapavir para até 3 milhões de pessoas até o fim de 2028, com projeção de 600 mil pessoas em 24 países em 2026. Até meados de setembro, haviam sido entregues 430 mil doses (327 mil de início de tratamento e 103 mil de continuação), e mais de 118 mil pessoas recebiam o remédio em programas nacionais, segundo o Fundo Global.
A Gilead diz que fornecerá o remédio "sem lucro" pelas parcerias com o Fundo Global e o PEPFAR, o programa americano. O texto não informa o preço. As primeiras versões genéricas são esperadas para o fim de 2026, e a disponibilidade ampla, para 2027, o que depende de os fabricantes licenciados aumentarem a produção.
Os obstáculos
Em Mbarara, onde o lenacapavir falta, as pessoas costumam receber cabotegravir, outra injeção, aplicada a cada dois meses. Cortes de financiamento acabaram com ações de divulgação que ofereciam testes e prevenção em áreas de maior risco. Muitos só procuram atendimento quando já estão muito doentes. A transmissão é impulsionada em grande parte pelo sexo pago em pontos urbanos, com uso baixo e irregular de camisinha.
Trabalhadoras do sexo querem a injeção pela proteção mais longa, mas uma delas, entrevistada pela AP, conta que, quando pergunta, "dizem que acabou" (tradução livre). Para Dorcus Twinabaitu, responsável por HIV/aids em Mbarara, o remédio é "o caminho, a menos que algo ainda melhor apareça" (tradução livre).
Para entender o contexto
O lenacapavir é um medicamento antirretroviral de ação prolongada: aplicado por injeção sob a pele, protege por cerca de seis meses. Ele foi testado como profilaxia pré-exposição (PrEP), ou seja, para evitar a infecção em pessoas sem HIV com risco de contrair, e a Organização Mundial da Saúde passou a recomendá-lo em 2025. A vantagem é não depender de tomar um comprimido todos os dias, o que é um problema de adesão para muitas pessoas.
O principal obstáculo é o acesso: o preço e a produção limitada fazem com que as doses cheguem primeiro a poucos programas e países, apesar de a maior parte do peso do HIV estar na África Subsaariana. O Brasil já oferece a PrEP oral pelo SUS desde 2017, e a discussão sobre o acesso a novas tecnologias, como a injetável, tem pontos em comum.
Termos úteis
- PrEP: Profilaxia pré-exposição: uso de medicamento por pessoas sem HIV para reduzir o risco de se infectar.
- Lenacapavir: Antirretroviral de ação prolongada, aplicado por injeção a cada seis meses.
- Prevalência: Proporção de pessoas de uma população que têm uma doença em determinado momento.
Gostou? Receba as próximas.
As histórias que não chegam em português, uma vez por semana, em 3 minutos de leitura. Sem spam.
Ao assinar, você concorda em receber a newsletter (com confirmação e link para sair em todo envio) e, conforme a política de privacidade, com o uso dos seus dados para medição e anúncios.