Todas as notícias
Ciência

Simulação mostra reservas do fundo do Pacífico isoladas demais, e poucos corredores poderiam ligá-las

Das 13 áreas protegidas da Zona Clarion-Clipperton, menos de 2 em cada 10 mil larvas simuladas chegam de uma reserva à outra. Um punhado de novos locais, quase todos fora das concessões de mineração, mudaria isso.

Por Redação Watermouse Media29 de outubro de 20265 min de leitura
O fundo do mar em águas profundas, coberto por nódulos escuros sobre sedimento claro
O fundo do mar com nódulos polimetálicos na região da Zona Clarion-Clipperton, no Pacífico (expedição SO239 do navio Sonne, 2015). Imagem ilustrativa, não faz parte do estudo. Foto: ROV KIEL 6000, GEOMAR, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

No meio do Pacífico, a cerca de 5.000 metros de profundidade, a Zona Clarion-Clipperton (CCZ) é uma planície abissal do tamanho da Europa, coberta de nódulos polimetálicos, pedras do tamanho de batatas ricas em níquel, cobalto e outros metais. Mais de 1,1 milhão de km² da zona têm licença de exploração para mineração, e a extração comercial pode começar nos próximos anos. Um novo estudo simulou o que isso significaria para a vida no fundo e concluiu que as reservas existentes estão longe demais umas das outras.

A pesquisa, liderada pelo Plymouth Marine Laboratory (PML), no Reino Unido, saiu na revista Nature Ecology & Evolution (2026), com o título, em tradução livre, "Corredores de dispersão melhoram a conectividade larval modelada junto ao fundo em redes de áreas protegidas de mar profundo". Molly James, do PML (modelagem de ecossistemas marinhos), assina como primeira autoria, e Kerry Howell, também do PML, como autoria sênior. Participaram também o National Oceanography Centre, a Universidade de Plymouth, a Universidade de Aarhus (Dinamarca) e o Joint Nature Conservation Committee.

Treze reservas, pouca conexão

A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) separou 13 reservas livres de mineração, chamadas Áreas de Interesse Ambiental Particular (APEIs), que somam quase 2 milhões de km². Elas foram escolhidas principalmente para representar diferentes habitats do fundo, não para conectar o fornecimento de larvas de uma à outra.

O que a simulação mostrou

A equipe usou modelos de correntes oceânicas em toda a CCZ para seguir os caminhos prováveis de larvas que derivam rente ao fundo, onde as larvas de águas profundas se concentram. Foram simulados períodos de dispersão de 19, 35 e 69 dias, em quatro épocas (janeiro e julho de 2019 e de 2023), além de um cenário de mineração em que as áreas licenciadas são perturbadas.

Larvas capazes de derivar por mais de dois meses costumavam percorrer menos de 100 km, e as reservas ficam de 200 a 800 km umas das outras: menos de 2 a cada 10 mil larvas simuladas soltas em uma reserva chegaram a outra. No cenário de mineração, as reservas forneceriam só uma pequena fração das larvas necessárias para a recuperação, e a maior parte viria do fundo desprotegido ao redor.

Poucos corredores, muita diferença

Um pequeno número de sítios adicionais, cobrindo uma área modesta e quase todos fora das concessões atuais, ligou as 13 reservas em uma única rede. A troca simulada de larvas entre as reservas aumentou mais de 400 vezes e, no cenário de mineração, a contribuição das áreas protegidas para repor locais danificados quase dobrou. "A rede atual não é ecologicamente coerente", diz Kerry Howell (tradução livre).

Para entender o contexto

A Zona Clarion-Clipperton é uma faixa do oceano Pacífico entre o Havaí e o México, com milhões de quilômetros quadrados e fundo a cerca de 4 mil a 5 mil metros. Ela guarda os chamados nódulos polimetálicos, bolas de minério com níquel, cobre, cobalto e manganês, que interessam à indústria de baterias e despertaram debate sobre a mineração em águas profundas.

As licenças de exploração na área são concedidas pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ligada à ONU, que também definiu áreas de proteção ambiental na zona. A pergunta do estudo é se essas reservas estão conectadas: espécies do fundo marinho dependem de larvas que se dispersam pelas correntes para repovoar áreas, e reservas isoladas demais podem não cumprir seu papel de proteger a biodiversidade.

Termos úteis

  • Nódulos polimetálicos: Concreções de minério do fundo do mar, ricas em manganês, níquel, cobre e cobalto.
  • Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos: Organização ligada à ONU que regula as atividades minerais no fundo do mar em águas internacionais.
  • Conectividade: Grau em que áreas distintas trocam indivíduos, por exemplo larvas levadas por correntes.

As ressalvas

O modelo mostra o potencial físico de dispersão pelas correntes junto ao fundo, não troca de genes nem recuperação de populações comprovadas; faltam medições diretas de correntes e amostragens genéticas nas áreas indicadas. A ISA estuda como reforçar a proteção ambiental na CCZ antes de qualquer aprovação de mineração, e os autores dizem que o método usa dados de circulação oceânica de acesso livre, em vez de levantamentos biológicos escassos, podendo ser aplicado a outras regiões do mar profundo.

Fonte: com base em reportagem do Phys.org, a partir de comunicado do Plymouth Marine Laboratory, sobre estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution (2026, DOI 10.1038/s41559-026-03172-5). Cobertura original da Watermouse Media, com contexto para o leitor brasileiro. Os fatos são atribuídos à fonte; o texto não é uma tradução.

Gostou? Receba as próximas.

As histórias que não chegam em português, uma vez por semana, em 3 minutos de leitura. Sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber a newsletter (com confirmação e link para sair em todo envio) e, conforme a política de privacidade, com o uso dos seus dados para medição e anúncios.