Análise de múmias incas identifica as substâncias usadas na capacocha, o principal ritual de sacrifício
Testes toxicológicos em cabelo e unhas de oito múmias de montanhas do Peru e da Argentina acharam cocaína em todas, álcool em quatro e harmina em uma. Segundo a autora, o ritual não era padronizado. A amostra é pequena, e várias leituras são interpretativas.
A capacocha foi um dos principais rituais do Império Inca: crianças e jovens eram sacrificados em honra a divindades importantes, e eram vistos como intermediários entre os vivos e o sagrado. Textos históricos citam o uso de plantas psicoativas, mas pouco se sabia sobre as substâncias. Um estudo na Antiquity, liderado por Dagmara Socha, da Universidade de Varsóvia, analisou múmias para tentar responder.
O que a equipe fez
Foram oito múmias de várias montanhas do Peru e da Argentina, escolhidas para cobrir diferentes práticas do ritual. Os pesquisadores fizeram testes toxicológicos em amostras de cabelo e unhas, onde substâncias ficam retidas na queratina. Avanços recentes permitem identificar concentrações bem baixas, e análises anteriores tinham dado resultados negativos ou se concentrado nas folhas de coca.
O que foi encontrado
Cocaína apareceu em todas as oito, o que combina com o hábito de mascar folhas de coca, que tinham papel religioso e podem ter ajudado contra o mal da altitude e o cansaço na subida. Álcool foi achado em quatro, possivelmente da chicha, a cerveja de milho. Registros históricos descrevem a chicha sendo dada para acalmar as crianças na etapa final do ritual. Harmina, um alcaloide ligado a plantas do gênero Banisteriopsis, uma das principais plantas da ayahuasca, foi encontrada em uma múmia, a Dama do Ampato, também chamada de Juanita. Para os autores, uma bebida com harmina pode ter tido um papel específico naquela montanha sagrada.
O que isso sugere
As substâncias variaram entre os indivíduos, o que sugere que a capacocha mudava conforme o lugar, adaptada a tradições, divindades e locais sagrados. Para Socha, o ritual "não era uma cerimônia única e padronizada".
Para entender o contexto
Substâncias consumidas ficam incorporadas à queratina do cabelo e das unhas, o que torna possível detectá-las mesmo em corpos antigos. A autora diz que o ritual "não era uma cerimônia única e padronizada", e que as práticas variavam de uma montanha para outra.
Termos úteis
- Capacocha: ritual inca em que pessoas eram sacrificadas em montanhas sagradas
- Queratina: proteína de cabelo e unhas, que retém substâncias consumidas
- Chicha: bebida fermentada, geralmente de milho, tradicional nos Andes
- Harmina: alcaloide encontrado em plantas usadas em preparos como a ayahuasca
As ressalvas
A amostra tem só oito indivíduos. A ligação da harmina a uma cerimônia específica aparece como possibilidade, e a origem do álcool na chicha é descrita como provável, não certa. O comunicado não traz concentrações, limites de detecção nem análise estatística, e não explica como as substâncias foram administradas nem como se relacionam ao momento da morte. É um resumo de comunicado de imprensa.
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