Onda de calor: o que é um domo de calor, por que as cidades esquentam mais e como se proteger
Uma onda de calor não é só um dia quente: é uma combinação de ar parado, noites sem alívio e cidades que acumulam calor. Entenda como ela se forma, por que mata e o que fazer quando a temperatura sobe.
Sempre que o termômetro dispara, aparecem os mesmos termos: "onda de calor", "domo de calor", "sensação térmica". Eles descrevem fenômenos diferentes, e entender a diferença ajuda a interpretar os alertas e, principalmente, a se proteger. Este guia reúne o essencial, sem alarmismo e sem minimizar o risco, que é real e atinge sobretudo quem tem menos acesso a abrigo e refrigeração.
O que é, tecnicamente, uma onda de calor
Não existe uma definição única. Em geral, considera-se onda de calor um período em que as temperaturas ficam bem acima do normal para o local e a época do ano, por alguns dias seguidos. Muitos serviços meteorológicos usam como referência um desvio de cerca de 5 °C acima da média por pelo menos dois a cinco dias, mas os critérios variam de país para país. Isso importa porque 35 °C é um dia comum em algumas regiões e um evento extremo em outras: o corpo e a infraestrutura se adaptam ao que é habitual.
O que é um "domo de calor"
O domo de calor é uma das causas mais comuns das ondas intensas. Acontece quando uma região de alta pressão se estabelece na atmosfera e fica parada por dias ou semanas, funcionando como uma tampa. O ar nessa região desce e, ao descer, é comprimido e esquenta. Como a alta pressão afasta as nuvens, o sol atinge o solo diretamente, o que seca a terra e aquece ainda mais o ar. E como as frentes frias e as chuvas ficam bloqueadas, não há quem "quebre" o padrão.
Quando esse padrão se prolonga, o calor se acumula dia após dia, e é por isso que o terceiro ou quarto dia costuma ser mais perigoso do que o primeiro.
Por que as cidades esquentam mais
As cidades são, em média, mais quentes do que as áreas vizinhas, um efeito chamado de ilha de calor urbana. Há várias causas:
- Materiais escuros e densos. Asfalto, concreto e telhados absorvem calor durante o dia e o devolvem à noite.
- Pouca vegetação. Árvores dão sombra e resfriam o ar ao liberar vapor de água. Sem elas, o calor fica.
- Calor gerado pela própria cidade. Ar-condicionado, motores e indústrias liberam calor adicional.
- Ruas e prédios que bloqueiam o vento. A circulação do ar fica prejudicada.
O resultado mais perigoso são as noites quentes. Normalmente, a noite permite que o corpo se recupere do calor do dia. Quando a temperatura mínima fica muito alta, essa recuperação não acontece, e o risco para a saúde aumenta.
O papel da umidade
A temperatura sozinha não conta a história toda. O corpo se resfria suando, e o suor só funciona se evaporar. Em dias muito úmidos, a evaporação é lenta e o corpo perde a capacidade de se refrescar, mesmo com temperaturas que parecem moderadas. Por isso se usam medidas que combinam temperatura e umidade, como o índice de calor ou a temperatura de bulbo úmido. A sensação térmica que aparece nas previsões tenta capturar isso. Estudos recentes indicam que o limite de segurança para o corpo humano, sobretudo para quem fica muitas horas exposto, pode ser menor do que se imaginava.
Por que o calor mata
Em geral, as mortes por calor não aparecem como "morte por calor" nas estatísticas. Muitas vezes, o calor agrava problemas que já existiam: o coração trabalha mais para bombear sangue à pele, a desidratação afeta os rins, e doenças respiratórias e cardiovasculares pioram. Por isso, a mortalidade em ondas de calor costuma ser medida como "mortes em excesso", comparando com o que seria esperado no período. A onda de calor europeia de 2003, por exemplo, está associada a dezenas de milhares de mortes em excesso, segundo estimativas, o que levou vários países a criar planos de alerta e de atendimento a grupos vulneráveis.
Quem corre mais risco
- Idosos, que sentem menos sede e regulam pior a temperatura.
- Bebês e crianças pequenas, que dependem de adultos para se hidratar e se abrigar.
- Pessoas com doenças crônicas, como problemas de coração, rins e pulmões, e quem usa certos medicamentos.
- Gestantes.
- Quem trabalha ao ar livre, como entregadores, trabalhadores da construção e da agricultura.
- Pessoas em situação de rua e moradias sem ventilação.
O que ajuda de verdade
- Beber água ao longo do dia, sem esperar a sede, a não ser que haja orientação médica para limitar líquidos.
- Evitar esforço e sol direto nas horas mais quentes, em geral entre o meio da manhã e o fim da tarde.
- Procurar lugares frescos. Se em casa faz muito calor, vale passar algumas horas em local climatizado, como biblioteca, shopping ou centro comunitário.
- Roupas leves e claras e proteção do sol.
- Banhos frescos e compressas ajudam a baixar a temperatura do corpo.
- Nunca deixar pessoas ou animais em carros fechados, nem por poucos minutos.
- Olhar por quem está sozinho, sobretudo vizinhos idosos.
Sinais de alerta
Tontura forte, dor de cabeça intensa, náusea, confusão mental, pele muito quente e seca (ou, ao contrário, suor excessivo e pele pegajosa), batimentos acelerados e desmaio podem indicar exaustão ou insolação, que é uma emergência médica. Nesse caso, procure atendimento imediatamente (no Brasil, o SAMU atende pelo 192) e, enquanto isso, leve a pessoa a um lugar fresco e resfrie o corpo com água.
O clima mudou o jogo?
Estudos de atribuição, como os feitos pela iniciativa World Weather Attribution, comparam eventos extremos com simulações de um mundo sem o aquecimento causado pela humanidade. Em muitos casos, concluem que as ondas de calor se tornaram mais prováveis e mais intensas. Isso não quer dizer que cada onda de calor seja "culpa" do clima, e sim que o aquecimento global aumenta a probabilidade e a intensidade desses eventos. É o mesmo raciocínio que aparece nas notícias sobre o derretimento acelerado das geleiras suíças: o calor extremo e a perda de gelo são parte do mesmo quadro.
Na prática, a adaptação passa por coisas simples e de longo prazo: mais árvores e áreas verdes nas cidades, telhados claros, sistemas de alerta e atenção aos mais vulneráveis. Para o dia a dia, o melhor que cada pessoa pode fazer é conhecer os sinais, preparar a casa e cuidar de quem está ao redor.
Gostou? Receba as próximas.
As histórias que não chegam em português, uma vez por semana, em 3 minutos de leitura. Sem spam.
Ao assinar, você concorda em receber a newsletter (com confirmação e link para sair em todo envio) e, conforme a política de privacidade, com o uso dos seus dados para medição e anúncios.