Todas as notícias
Cultura

Como se decifra uma escrita antiga: da Pedra de Roseta ao Linear B

Decifrar uma escrita esquecida não é adivinhar sinais: exige textos suficientes, pistas externas e muita verificação. Veja como isso foi feito nos casos célebres e por que o Linear A ainda resiste.

Por Redação Watermouse Media27 de outubro de 20269 min de leitura
Tábua de argila com sinais da escrita Linear A, em exposição num museu.
Tábua com escrita Linear A, de Zakros (Creta), no Museu Arqueológico de Sitia. Foto: Zde, CC BY-SA 4.0.

De tempos em tempos, uma manchete anuncia que alguém "decifrou" uma escrita misteriosa. É um tema que fascina porque mistura detetive, linguística e história. Mas decifrar uma escrita é um trabalho bem menos mágico e muito mais rigoroso do que parece. Entender como isso foi feito nos casos mais célebres ajuda a avaliar com calma as alegações novas, inclusive a recente discussão sobre o Linear A e a inteligência artificial.

1799
a Pedra de Roseta é encontrada no Egito
1822
Champollion apresenta a leitura dos hieróglifos
1952
Ventris mostra que o Linear B registra grego antigo

Escrita, língua e sinais: três coisas diferentes

Antes de tudo, é preciso separar três problemas. Um sistema de escrita é o conjunto de sinais (letras, sílabas, ideogramas). A língua é o idioma que ele registra. E o significado é o que os textos dizem. Em alguns casos, sabe-se a língua mas não se consegue ler os sinais; em outros, os sinais podem ser lidos como sons, mas a língua é desconhecida e ninguém consegue entender o que as palavras querem dizer. Cada situação exige um caminho diferente.

O que se precisa para decifrar

Os casos bem-sucedidos têm quase sempre algumas condições em comum:

  • Muitos textos. Quanto maior o corpo de inscrições, mais padrões podem ser testados. Com poucas dezenas de sinais curtos, praticamente não há como confirmar nada.
  • Uma "ponte". Um texto bilíngue, que traz a mesma mensagem em uma escrita conhecida e outra desconhecida, é a pista mais valiosa.
  • Uma língua conhecida ou parente de uma conhecida. Se o idioma tem descendentes ou parentes bem estudados, é possível comparar palavras e estruturas.
  • Contexto. Saber onde e como os textos foram usados (contabilidade, orações, túmulos) ajuda a prever o tipo de palavra que deve aparecer.
  • Testes independentes. Uma leitura só é aceita quando outras pessoas conseguem aplicá-la a textos novos e chegar a resultados coerentes.

A Pedra de Roseta e o egípcio

Por mais de mil anos, ninguém soube ler os hieróglifos. A virada começou em 1799, quando soldados franceses encontraram, no Egito, uma pedra com um decreto do século II a.C. gravado em três escritas: hieróglifos, uma escrita cursiva egípcia chamada demótico e o grego antigo. O grego era legível, e o texto dizia a mesma coisa nas três versões. Com isso, havia uma ponte.

Mesmo assim, o trabalho levou décadas. Vários estudiosos contribuíram, e em 1822 Jean-François Champollion apresentou a leitura que se firmou. A chave foi perceber que os hieróglifos combinavam sinais que representam sons com sinais que representam ideias, e que o copta, língua usada pela comunidade cristã egípcia, preservava traços do egípcio antigo. Nomes de governantes escritos em molduras ovais, os cartuchos, serviram de ponto de partida: eram palavras conhecidas pelo grego, e dava para associar cada sinal a um som.

O Linear B e a surpresa do grego

O segundo grande caso é mais recente. No início do século XX, as escavações de Cnossos, em Creta, conduzidas por Arthur Evans, trouxeram milhares de tábuas de argila com uma escrita que ele chamou de Linear B. Não havia texto bilíngue, e a língua era desconhecida. Durante décadas, muitos acreditaram que se tratava da língua dos minoicos, o povo da ilha.

O avanço veio por análise estatística e estrutural. Os estudos de Alice Kober mostraram que os sinais formavam padrões de terminações de palavras, como acontece com as flexões de um idioma. Em 1952, Michael Ventris, arquiteto de formação e entusiasta da escrita, mostrou que os sinais eram silábicos e que o idioma era uma forma antiga de grego, hoje chamada de micênico. John Chadwick, especialista em grego, colaborou na confirmação. A leitura fazia sentido em dezenas de tábuas, e a surpresa foi que os documentos eram, em grande parte, listas de inventário e de rações, não poemas.

O Linear A, que continua sem leitura

O Linear A é mais antigo que o Linear B e foi usado em Creta no período minoico. Os estudiosos conseguem atribuir sons a vários sinais porque o Linear B tomou muitos símbolos emprestados dele. Isso permite "pronunciar" boa parte das inscrições. Mas pronunciar não é entender: a língua subjacente continua desconhecida, e não há texto bilíngue. Os textos conhecidos também são relativamente curtos e pouco numerosos, o que dificulta testes estatísticos.

É por isso que qualquer proposta de leitura do Linear A precisa ser tratada com cautela. Hipóteses de que a língua seria semítica, indo-europeia ou de outro grupo já foram feitas ao longo do tempo, sem consenso. No caso mais recente que cobrimos, quem fez a proposta publicou um estudo com um vocabulário e traduções, mas a comunidade acadêmica ainda não confirmou o resultado.

Outros exemplos: maia e sidético

A escrita maia também foi desvendada aos poucos, ao longo do século XX, quando especialistas perceberam que ela combinava sinais fonéticos e logogramas e que os textos registravam história política, não apenas calendários e religião. Hoje, grande parte dos textos maias pode ser lida.

Um caso mais atual é o do sidético, língua antiga da Anatólia, onde novas inscrições bilíngues recém-escavadas ajudam a ler letras que antes eram incertas. Mostra como textos bilíngues continuam sendo o tipo de descoberta que mais faz avançar o assunto.

E a inteligência artificial?

Modelos de IA podem ajudar bastante: encontrar padrões estatísticos em inscrições, comparar vocabulários em muitas línguas e testar hipóteses em escala. Mas ferramentas não substituem a validação. Um programa pode produzir leituras que parecem coerentes, o que não é o mesmo que serem corretas. O critério que sempre valeu continua valendo: a leitura precisa ser testável, previsível e reprodutível por outras pessoas em textos que não foram usados para chegar a ela.

Sinais de alerta para avaliar uma "decifração"

  • A leitura funciona só nos textos escolhidos pelo autor e falha em outros.
  • O vocabulário proposto é grande, mas há pouca previsão que possa ser verificada.
  • A conclusão é anunciada na imprensa antes de ser submetida a especialistas.
  • A proposta ignora o que já se sabe sobre a história e a arqueologia do local.
  • Os resultados dependem de escolher, para cada sinal, o som que melhor encaixe com a hipótese.

Nenhum desses sinais prova que uma proposta está errada; eles apenas indicam onde olhar. Decifrar uma escrita é, no fim das contas, um trabalho coletivo e lento, e a confiança vem da repetição. Quando uma decifração é de fato correta, os textos começam a "falar" de modo consistente, e isso é visível para todos os que a testam.

Sobre este guia: texto original da Redação Watermouse Media, sem fonte-base única. Veja como trabalhamos e como apontar um erro. Guia original da Redação Watermouse Media, escrito para explicar conceitos que aparecem com frequência nas notícias. Não é cobertura de um fato específico; datas e números vêm de fontes públicas amplamente documentadas.

Gostou? Receba as próximas.

As histórias que não chegam em português, uma vez por semana, em 3 minutos de leitura. Sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber a newsletter (com confirmação e link para sair em todo envio) e, conforme a política de privacidade, com o uso dos seus dados para medição e anúncios.