Novo modelo indica que a geleira Thwaites pode elevar o nível do mar em até 30 mm até 2100, o dobro de projeções anteriores
Pesquisadores da UC Irvine e do JPL da NASA dizem que modelos antigos tratavam o ponto em que o gelo começa a flutuar como uma linha fina. Ao representá-lo como uma zona larga, onde a água quente chega por baixo, os resultados se aproximam das observações.
A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, conhecida como "geleira do Juízo Final", pode contribuir com até 30 milímetros para a elevação do nível do mar até 2100, o dobro das projeções anteriores, segundo um novo estudo na Nature Communications. O resultado, de um modelo desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine) e do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, vale mesmo sem aquecimento adicional, diz o comunicado.
A Thwaites fica no Embaiamento do Mar de Amundsen, região que responde por cerca de um terço de toda a perda de massa da calota de gelo antártica. A geleira afinou e recuou rápido nas últimas décadas, e seu fluxo de gelo acelerou, algo que os modelos tradicionais tiveram dificuldade em reproduzir.
O que muda no modelo
Os modelos antigos tratavam a linha de ancoragem, ponto em que o gelo deixa de apoiar-se no leito e começa a flutuar, como uma linha estreita. O novo modelo, liderado por Mattia Poinelli, com Eric Rignot, da UC Irvine, entre os autores, a representa como uma zona de ancoragem mais larga, às vezes de quilômetros, onde a água quente chega por baixo do gelo. O mecanismo descrito é este: a água do mar entra por vários quilômetros sob o gelo que ainda repousa no fundo; com a maré, a água levanta o gelo e expõe repetidamente a sua face inferior ao mar quente e pressurizado.
Com essa mudança, o modelo reproduziu alterações das décadas de 1990 até hoje que foram quatro vezes mais intensas que as dos modelos convencionais. A equipe comparou as simulações com mais de duas décadas de observações e analisou dados de radar de abertura sintética da constelação de satélites ICEYE, da Finlândia, que mostraram oscilações ao longo de vários quilômetros da zona de ancoragem no tronco principal.
O que vem pela frente
O tronco principal está temporariamente estabilizado por uma elevação submarina, a Cordilheira Mouginot. Se a zona de ancoragem tiver de 4 a 6 km, o modelo indica 60% de chance de a Thwaites se soltar dessa cordilheira até o fim do século, possivelmente antes de 2100. Depois, o gelo recuaria por um fundo majoritariamente inclinado para dentro do continente, em direção à próxima elevação, a Cordilheira Sul. "A maioria das projeções até agora teve dificuldade em acompanhar a rapidez da perda de massa por causa de uma física que faltava", disse Rignot, para quem os resultados indicam um risco de inundação costeira maior que o esperado nas próximas décadas.
Para entender o contexto
As geleiras da Antártida repousam sobre rocha e, perto do mar, passam a flutuar. A linha em que isso acontece, a linha de ancoragem, é central para o equilíbrio do gelo: se ela recua, o gelo atrás fica mais exposto ao oceano e flui mais depressa para o mar.Gelo que já flutua não eleva o nível do mar ao derreter, mas gelo que está sobre a terra e escoa para o oceano sim. Por isso, a Thwaites, uma das geleiras que mais perdem massa, é acompanhada de perto: pequenas diferenças nos modelos viram diferenças grandes nas projeções.
Termos úteis
- Linha de ancoragem: ponto em que o gelo deixa de se apoiar no leito de rocha e começa a flutuar sobre o mar.
- Zona de ancoragem: faixa, às vezes de quilômetros, onde o gelo oscila entre apoiado e flutuando, com as marés.
- Radar de abertura sintética (SAR): técnica de satélite que mede o relevo e os movimentos da superfície, mesmo com nuvens ou sem luz.
- Limite superior: valor máximo que um modelo projeta; o resultado real pode ser menor.
As ressalvas
Os 30 milímetros são um limite superior ("até"), resultado de um modelo, e não um desfecho garantido. A chance de 60% vale para o cenário de zona de ancoragem de 4 a 6 km. O comunicado diz que as projeções atualizadas sugerem que cientistas podem ter subestimado a contribuição da geleira, e que a abordagem é um caminho para reduzir incertezas, o que implica que elas continuam existindo.
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