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Ciência

Fóssil de 17 milhões de anos achado no Egito reabre o debate sobre onde viveu o ancestral dos grandes primatas

Uma mandíbula do Mioceno, descrita na Science como o primeiro fóssil definitivo de ape no norte da África, sugere que o grupo pode ter raízes fora do leste do continente. Os próprios autores pedem cautela: só parte da mandíbula foi encontrada.

Por Redação Watermouse Media3 de novembro de 20264 min de leitura
Crânio fóssil de um primata antigo, de cor clara e com os dentes à mostra, sobre fundo escuro
Crânio fóssil de Proconsul africanus, um ape do Mioceno Inferior do Quênia, imagem ilustrativa, não é o fóssil do estudo. Foto: James St. John (CC BY 2.0), via Wikimedia Commons.

Gibões, orangotangos, gorilas, chimpanzés e humanos formam o grupo dos hominoides, ou apes, os primatas sem cauda. Todos descendem de um ancestral comum, e onde ele viveu é uma pergunta em aberto. Uma mandíbula fóssil encontrada no norte do Egito, descrita na Science por uma equipe da Universidade de Mansoura e da Universidade do Sul da Califórnia, dá um novo peso à ideia de que a resposta pode estar fora do leste da África.

O que foi encontrado

O fóssil é de Masripithecus moghraensis, uma espécie nova batizada com a palavra árabe para Egito, Masr, e com o nome do sítio, Wadi Moghra. Tem entre 17 e 18 milhões de anos, do Mioceno Inferior, e é descrito como o primeiro fóssil definitivo de ape já achado no norte da África. Foi escavado em 2023 e 2024 pela equipe do laboratório de Hesham Sallam, que diz ter passado cinco anos procurando um achado desse tipo.

Só parte da mandíbula inferior foi recuperada. Ela é robusta, com caninos e pré-molares grandes e molares de superfície arredondada, o que indica uma dieta feita principalmente de frutas, mas capaz de dar conta de alimentos mais duros, como nozes e sementes, quando preciso. Para a primeira autora, Shorouq Al-Ashqar, é um animal adaptado à versatilidade, algo útil diante de mudanças sazonais.

Por que o achado mexe com a teoria

A hipótese mais aceita coloca as raízes dos apes vivos na África Oriental. Com métodos de análise bayesiana, que combinam anatomia de apes vivos e extintos, dados genéticos e idades dos fósseis, a equipe concluiu que Masripithecus aparece mais próximo dos apes vivos do que qualquer ape do Mioceno Inferior da África Oriental. As análises apontam o norte da África e o Oriente Médio como lar provável do ancestral comum de todos os apes vivos, entre cerca de 23 e 16 milhões de anos atrás. Como pano de fundo, o comunicado lembra que as placas africana e arábica avançavam em direção à Ásia e que conexões terrestres permitiam a migração de animais entre África e Eurásia.

Para entender o contexto

O Mioceno é a época geológica que vai de cerca de 23 a 5 milhões de anos atrás. Foi nesse intervalo que os apes se diversificaram, e o registro fóssil deles na África e na Eurásia é cheio de lacunas.

Quase todos os fósseis conhecidos de apes do Mioceno Inferior vinham da África Oriental, o que ajudou a firmar a ideia de que o grupo surgiu ali. Mas um fóssil só aparece onde as condições favoreceram a preservação e onde alguém escavou, então a ausência de achados em outras regiões nem sempre significa ausência de animais.

Termos úteis

  • Ape (hominoide): primata sem cauda; inclui gibões, orangotangos, gorilas, chimpanzés e humanos.
  • Mioceno: época geológica de cerca de 23 a 5 milhões de anos atrás.
  • Filogenia bayesiana: método estatístico que estima as relações de parentesco entre espécies a partir de anatomia, genética e idade dos fósseis.
  • Biogeografia: estudo de onde as espécies viveram e de como se espalharam ao longo do tempo.

As ressalvas

Os autores não dizem que Masripithecus seja ancestral direto dos humanos, nem necessariamente dos apes vivos: o que o fóssil mostra é onde a linhagem mais ampla pode ter surgido. Como só parte da mandíbula foi achada, não se sabe o tamanho do corpo, como o animal se movia nem como se comportava. O coautor Erik Seiffert, que por toda a carreira considerou mais provável a origem na África Oriental, afirma que a plausibilidade do cenário do norte da África não depende desse fóssil, mas que ele é muito consistente com ela. A equipe diz que são necessários mais fósseis e novas escavações na região.

Fonte: com base em comunicado divulgado pelo ScienceDaily sobre o artigo "An Early Miocene ape from the biogeographic crossroads of African and Eurasian Hominoidea" (Al-Ashqar, Seiffert, Sallam e colegas), publicado na Science em 26 de março de 2026 (volume 391, nº 6792, p. 1383), DOI 10.1126/science.adz4102. Pesquisadores da Universidade de Mansoura, no Egito, e da Universidade do Sul da Califórnia (USC). Cobertura original da Watermouse Media, com contexto para o leitor brasileiro. Os fatos são atribuídos à fonte; o texto não é uma tradução.

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