Todas as notícias
Ciência

Eclipse de 2.700 anos registrado na China corrige a posição de uma cidade antiga e refina a rotação da Terra

Pesquisadores notaram que estudos anteriores colocavam Qufu cerca de 8 km fora do lugar. Com a posição corrigida, o eclipse de 709 a.C. ajuda a estimar a rotação da Terra e, de forma mais incerta, a atividade do Sol na época.

Por Redação Watermouse Media3 de novembro de 20265 min de leitura
Eclipse solar total, com o disco escuro da Lua cercado pela coroa branca e delicada do Sol sobre um céu azul-escuro
Eclipse solar total, com a coroa do Sol visível. Imagem ilustrativa de outro eclipse, não do de 709 a.C. Foto: Luc Viatour, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Um eclipse solar total registrado na China há cerca de 2.700 anos serviu de base para corrigir a posição de uma cidade antiga e refinar estimativas da rotação da Terra. Pesquisadores liderados por Hisashi Hayakawa, da Universidade de Nagoya (Japão), com Mathew Owens, Meng Jin, Mitsuru Sôma e Mike Lockwood, analisaram o relato do eclipse de 17 de julho de 709 a.C., feito na corte do Ducado de Lu e anotado nos Anais das Primaveras e Outonos, compilados cerca de 200 a 300 anos depois. O estudo saiu no The Astrophysical Journal Letters (DOI 10.3847/2041-8213/ae0461), e o texto em que nos baseamos é um comunicado da Universidade de Nagoya.

O erro de 8 km

O relato diz que "o Sol foi totalmente eclipsado". Os pesquisadores o descrevem como o registro escrito explícito mais antigo de um eclipse solar total que pode ser datado com segurança. No início, os cálculos com as estimativas existentes de rotação da Terra indicavam que o eclipse total não seria visível de Qufu, onde ficava a corte de Lu. A equipe rastreou o problema até as coordenadas da cidade: com relatórios de escavações arqueológicas e evidências de geografia histórica, concluiu que trabalhos anteriores colocavam a antiga Qufu a cerca de 8 km do lugar real. Com a posição corrigida, o eclipse pôde ser reconstruído de forma coerente com os registros.

O que isso diz sobre a Terra

A rotação da Terra desacelerou ao longo de períodos muito longos, em grande parte pelo atrito de maré causado pela gravidade da Lua. Há 2.700 anos, portanto, o planeta girava um pouco mais rápido. Com a posição corrigida, a equipe estimou o parâmetro ΔT para o eclipse de 709 a.C. entre 20.264 e 21.204 segundos, o que melhora as restrições sobre a rotação do planeta entre os séculos 8 e 6 a.C. Segundo Sôma, o novo conjunto de dados corrige erros de coordenadas de estudos anteriores (tradução livre). Os registros foram preservados em parte porque astrônomos das cortes chinesas anotavam fenômenos celestes, entre outros motivos, pela crença de que eventos incomuns no céu podiam sinalizar má conduta de um governante.

O que isso pode dizer sobre o Sol

Um acréscimo posterior, no Livro de Han, escrito cerca de sete séculos depois do eclipse, descreve o Sol eclipsado como "completamente amarelo acima e abaixo". Essa descrição foi ligada tradicionalmente à coroa solar. Se for isso mesmo, seria uma das mais antigas descrições escritas da coroa, segundo Hayakawa (tradução livre). Pela aparência, o Sol teria voltado à atividade regular e talvez estivesse perto do pico do ciclo de cerca de 11 anos, pouco depois do chamado Grande Mínimo Neo-Assírio, um longo período de atividade muito baixa, de cerca de 808 a 717 a.C. Isso é coerente com reconstruções feitas com radiocarbono em anéis de árvores, e Owens vê o relato como um ponto de referência para essas reconstruções e uma validação independente de modelos solares.

Para entender o contexto

Eclipses solares são fenômenos precisos: sua visibilidade em um ponto depende da posição do Sol, da Lua e da Terra, e da rotação do planeta. Como esta rotação desacelera lentamente por causa das marés, os eclipses registrados na Antiguidade servem como marcos para reconstruir o quanto a Terra girou ao longo de milhares de anos, usando uma grandeza chamada ΔT.

Registros chineses antigos, como os Anais da Primavera e do Outono, do estado de Lu, anotam eclipses desde o século VIII a.C., e a cidade de Qufu foi a capital desse estado. Corrigir a posição de um local de observação muda o cálculo, e é um bom exemplo de como a história e a astronomia se ajudam. A inferência sobre a atividade do Sol é mais incerta, como a própria matéria ressalva.

Termos úteis

  • ΔT (delta T): Diferença entre o tempo definido pela rotação da Terra e o tempo uniforme dos relógios atômicos.
  • Anais da Primavera e do Outono: Crônica antiga do estado chinês de Lu, que registra eclipses e outros eventos desde o século VIII a.C.
  • Eclipse solar: Fenômeno em que a Lua passa entre a Terra e o Sol e encobre a luz, total ou parcialmente.

As ressalvas

A interpretação da coroa depende de um texto escrito séculos depois do evento e é incerta, e os autores dizem que não pode ser considerada prova definitiva. O comunicado usa expressões como "possível" e "pode". A data do eclipse e as estimativas de rotação da Terra são apresentadas como mais confiáveis do que a hipótese sobre a coroa.

Fonte: com base em comunicado da Universidade de Nagoya republicado pelo ScienceDaily (26 de outubro de 2026), sobre estudo publicado no The Astrophysical Journal Letters (2025; DOI 10.3847/2041-8213/ae0461). Cobertura original da Watermouse Media, com contexto para o leitor brasileiro. Os fatos são atribuídos à fonte; o texto não é uma tradução.

Gostou? Receba as próximas.

As histórias que não chegam em português, uma vez por semana, em 3 minutos de leitura. Sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber a newsletter (com confirmação e link para sair em todo envio) e, conforme a política de privacidade, com o uso dos seus dados para medição e anúncios.