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O que o condor-da-califórnia ensina sobre quem deve decidir quais espécies salvar

Artigo de análise de dois autores, publicado durante a COP17 da biodiversidade, usa o caso do condor para defender mais voz de povos indígenas e comunidades locais. É argumentação fundamentada, não uma notícia sobre uma decisão.

Por Redação Watermouse Media4 de novembro de 20266 min de leitura
Um condor-da-califórnia em voo, de asas abertas, sobre montanhas e céu azul
Um condor-da-califórnia em voo. Imagem ilustrativa. Crédito: USFWS Pacific Southwest Region (domínio público).

Em 1987, biólogos capturaram o último condor-da-califórnia que ainda voava livre, e a espécie foi declarada extinta na natureza. Décadas de trabalho e "milhões de dólares" em criação em cativeiro e reintrodução recuperaram mais de 300 condores na natureza, segundo o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA (USFWS), citado no texto. O condor, que pode ter mais de 2,9 metros de envergadura, virou o ponto de partida de um artigo de análise de Shannon Gibson e David Ginsburg sobre uma pergunta incômoda: quem deve decidir quais espécies são salvas, e a que custo?

O artigo foi publicado no The Conversation e republicado pelo Phys.org em 24 de outubro de 2026. A página não informa as afiliações dos autores, e o que segue são os argumentos deles, não uma reportagem sobre uma decisão.

O caso do condor

Segundo os autores, o resgate foi cheio de conflitos. Conservacionistas discordavam se capturar todas as aves era salvamento ou rendição. Críticos diziam que o dinheiro seria mais bem gasto com outras espécies ameaçadas. Comunidades rurais de Utah e do Arizona se opunham às restrições federais ao uso da terra, e grupos de caça, como a NRA, resistiram a proibir munição de chumbo, uma das principais causas de morte dos condores. A tribo Yurok, na Califórnia, tem laços culturais e espirituais com a ave.

O contexto: a COP17

O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado em 2022, quer frear e reverter a perda de biodiversidade, levantar US$ 200 bilhões por ano de fontes públicas e privadas até 2030, conservar ou manejar pelo menos 30% das terras, áreas costeiras e oceanos e impedir extinções causadas por humanos. Ele não escolhe quais espécies salvar, mas suas regras moldam as prioridades nacionais e o financiamento.

A COP17 foi marcada para 19 a 30 de outubro de 2026 em Yerevan, na Armênia, e o texto foi escrito durante a conferência, sem trazer o resultado. Entre as tarefas citadas está definir como funcionará o órgão consultivo permanente de povos indígenas e comunidades locais criado na COP16, em 2024, inclusive se terá papel formal de decisão, e adotar diretrizes para aplicar a meta dos 30% em territórios indígenas.

Os números citados

Cerca de 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção (avaliação da IPBES), e avaliações iniciais sugerem que o mundo está aquém da maioria das metas do marco. Um estudo de 2025 na PNAS (DOI 10.1073/pnas.2412479122), sobre mais de 14 mil projetos voltados a espécies entre 1992 e 2016, mostrou que cinco grupos de mamíferos (primatas, carnívoros, baleias, elefantes e rinocerontes) receberam 86% do dinheiro, embora fossem só cerca de um terço dos projetos de mamíferos ameaçados, enquanto plantas e invertebrados ficaram com 6,6%. As abelhas polinizam mais de US$ 15 bilhões em lavouras dos EUA por ano, e o Paulson Institute estima que o mundo precisa de mais US$ 1,3 trilhão por ano para conservar e restaurar a biodiversidade.

Quem decide

Os autores argumentam que a conservação afeta pessoas e negócios locais, e que sem apoio local a recuperação pode fracassar. Dão outros exemplos: na Europa, a volta dos lobos trouxe prejuízo a alguns pecuaristas, e programas da UE ajudam a cobrir a proteção do rebanho; na Área de Conservação de Ngorongoro, na Tanzânia, os maasai resistem há anos a remoções em nome da conservação de leões, e em março de 2026 duas comissões presidenciais recomendaram manter as remoções, enquanto o Oakland Institute relatou que poucos maasai participaram do processo.

"Participação não é o mesmo que poder de decisão", dizem, citando defensores indígenas, segundo os quais as comunidades costumam ser consultadas depois que as prioridades já foram definidas (tradução livre). Para eles, a recuperação duradoura exige participação real de povos indígenas e comunidades locais nas decisões, repartição de custos e proteção das condições ecológicas, tanto quanto o resgate de indivíduos.

Para entender o contexto

O condor-da-califórnia chegou a ter menos de 30 indivíduos nos anos 1980, e os últimos animais livres foram capturados em 1987 para um programa de reprodução em cativeiro, que depois os soltou de volta à natureza. É um dos casos mais conhecidos de recuperação de uma espécie à beira da extinção, e hoje há centenas de aves, boa parte delas livres.

As conferências das partes (COP) da Convenção sobre Diversidade Biológica reúnem países para negociar metas de conservação, como a de proteger 30% das terras e dos oceanos até 2030, definida no acordo de Kunming-Montreal, de 2022. Um debate central é quem participa das decisões: povos indígenas e comunidades locais manejam grandes áreas ricas em biodiversidade, inclusive no Brasil. O texto é uma análise de opinião fundamentada, que defende uma posição.

Termos úteis

  • COP: Conferência das Partes, reunião periódica dos países signatários de uma convenção internacional.
  • Meta 30x30: Compromisso de proteger 30% das terras e dos mares do planeta até 2030.
  • Conservação comunitária: Proteção da natureza com participação e liderança de comunidades locais e povos indígenas.

As ressalvas

É um texto de análise, não a notícia de uma decisão. Algumas afirmações vêm de grupos de defesa, como o Oakland Institute e defensores indígenas, e são apresentadas como visões deles. Os números são de terceiros (USFWS, IPBES, Paulson Institute e o estudo da PNAS) e não foram verificados de forma independente por nós, e a página não diz quem tomou a decisão de capturar o último condor em 1987.

Fonte: com base em artigo de Shannon Gibson e David Ginsburg, do The Conversation, republicado pelo Phys.org em 24 de outubro de 2026. Cobertura original da Watermouse Media, com contexto para o leitor brasileiro. Os fatos são atribuídos à fonte; o texto não é uma tradução.

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