China ultrapassa a Rússia e vira a maior parceira comercial da Ásia Central
O comércio entre a China e os cinco países da região bateu US$ 106,3 bilhões em 2025, o dobro do russo. Um reposicionamento silencioso no quintal histórico de Moscou.
Por décadas, quem mandava no comércio da Ásia Central era a Rússia, herança direta da era soviética. Esse mapa mudou de dono. O intercâmbio comercial entre a China e os cinco países da região (Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão) alcançou US$ 106,3 bilhões em 2025, alta de 12% sobre 2024. É a primeira vez que a marca dos US$ 100 bilhões é superada, e o valor é cerca do dobro do comércio russo com a mesma região.
Os números vêm da Administração Geral de Alfândegas da China e foram citados pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, em 19 de janeiro. As exportações da China para a Ásia Central somaram US$ 71,2 bilhões (alta de 11%), puxadas por máquinas, eletrônicos e produtos de alta tecnologia. Na outra ponta, a China importou US$ 35,1 bilhões da região (alta de 14%), sobretudo petróleo, gás natural e outras matérias-primas.
A composição conta a história por trás do número: a China vende tecnologia e manufatura, e compra energia e commodities. É o mesmo padrão que Pequim exporta para boa parte do mundo em desenvolvimento, agora aplicado a uma região que Moscou considerava sua zona natural de influência. Analistas, porém, ponderam que domínio econômico não é o mesmo que aceitação política: pesquisadores que acompanham a região registram um aumento das visões negativas sobre a China e episódios de resistência local a projetos chineses.
Por que isso importa no Brasil
A China é, de longe, a maior parceira comercial do Brasil, e a lógica que aparece na Ásia Central é a mesma que rege boa parte da relação bilateral: o Brasil vende commodities (soja, minério, petróleo) e compra manufaturados e tecnologia. Ver Pequim assumir o posto de maior parceira em uma região que era o quintal da Rússia ajuda a entender a direção da estratégia chinesa: adensar rotas terrestres, energia e infraestrutura ao longo da Nova Rota da Seda. Para um país exportador como o Brasil, acompanhar como a China estrutura essas relações, e onde surgem atritos, é ler o próprio futuro comercial com antecedência.
Para entender o contexto
A Ásia Central, formada por Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão, foi parte da União Soviética até 1991, e a Rússia manteve ali grande peso econômico e político. Nas últimas décadas, a China aumentou investimentos, empréstimos e obras de infraestrutura na região, em parte pela Iniciativa do Cinturão e Rota.
Ser a maior parceira comercial significa que o comércio com a China, em valor, supera o de cada outro país, o que não quer dizer controle da região. Os governos locais costumam buscar equilíbrio entre vários parceiros, incluindo Rússia, China, União Europeia, Turquia e Estados Unidos, e a posição relativa dos países muda com sanções, preços de commodities e novos corredores de transporte.
Termos úteis
- Ásia Central: Região de cinco países de maioria muçulmana que foram repúblicas soviéticas.
- Iniciativa do Cinturão e Rota: Programa chinês de investimentos em infraestrutura que liga a China a outras regiões do mundo.
- Parceiro comercial: País com o qual se movimenta o maior valor de exportações e importações.
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