ONU lança acelerador global para as redes elétricas que travam a energia limpa
O mundo instala painéis e turbinas num ritmo recorde, mas falta fio para escoar essa energia. Uma nova iniciativa da ONU quer destravar as redes na África e no Sudeste Asiático.
Existe um gargalo pouco glamouroso no meio da transição energética: a rede elétrica. O mundo está instalando energia solar e eólica num ritmo recorde, mas, em muitos lugares, as linhas de transmissão e distribuição que deveriam escoar essa energia não acompanham. O resultado é uma fila gigantesca de projetos prontos que não conseguem se conectar. Para atacar esse problema, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou em 23 de setembro o Global Grids Accelerator (Acelerador Global de Redes).
Os números do gargalo impressionam. Segundo a iniciativa, há mais de 2.500 gigawatts de projetos renováveis parados em filas de conexão pelo mundo, o equivalente a quase o dobro de toda a capacidade de geração elétrica dos Estados Unidos. E o investimento anual em redes, hoje estimado em cerca de US$ 450 bilhões, precisaria crescer uns 50% até 2030 para dar conta da demanda e das novas usinas renováveis. Sem redes, a energia barata simplesmente não chega a quem precisa.
O foco do acelerador é a África e o Sudeste Asiático, regiões onde a falta de rede é um dos maiores freios ao acesso à eletricidade. A proposta não é criar um novo banco nem substituir iniciativas que já existem, mas ajudar os governos a transformar seus planos de rede em projetos financiáveis e executáveis, reunindo apoio regulatório, preparação de projetos, financiamento e implementação. Na prática, é tentar resolver o "meio do caminho": aquele ponto em que uma boa intenção de política pública emperra por falta de estruturação técnica e de dinheiro na hora certa.
Por que isso importa no Brasil
O Brasil conhece bem esse dilema. Temos sol e vento de sobra, principalmente no Nordeste, mas a geração renovável já vem esbarrando em limites de transmissão, e não é raro ter que "cortar" energia eólica e solar porque a rede não consegue escoá-la. É o mesmo problema do acelerador da ONU, só que dentro de casa. Acompanhar como outros países destravam suas redes, e quem financia isso, é diretamente útil para o debate brasileiro sobre leilões de transmissão e armazenamento. E há um recado mais amplo: a próxima fronteira da energia limpa talvez não seja gerar mais, e sim conseguir entregar o que já se gera.
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