Partículas radioativas de Chernobil resistiram 40 anos mais estáveis do que se esperava
Seis partículas do desastre nuclear, analisadas com raios X, mantiveram boa parte da estrutura cristalina original. Os autores avisam: isso não prova que a contaminação esteja ficando inofensiva.
Cerca de 40 anos depois do desastre nuclear de Chernobil, partículas radioativas coletadas na região se mostraram quimicamente mais estáveis do que os cientistas imaginavam. Pesquisadores do Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf (HZDR) e da Universidade Leibniz de Hannover analisaram seis partículas com difração de raios X e viram que o combustível nuclear dentro delas manteve boa parte da estrutura cristalina original.
O trabalho saiu no Journal of Hazardous Materials (2026, vol. 505, artigo 141533), com o título, em tradução livre, "Análise de fase por difração de raios X de partículas quentes individuais de Chernobil". Entre os autores estão Tobias Weissenborn, da Universidade Leibniz de Hannover (doutorado em física), e Christoph Hennig, do HZDR (cristalografia).
O que eles analisaram e como
Foram seis partículas de 8 a 50 micrômetros, recolhidas em dois locais diferentes e isoladas de amostras de solo ucraniano. Elas continuam altamente radioativas. Fixadas em eletrodos de tungstênio e transportadas dentro de várias camadas de contenção até Grenoble, na França, foram medidas na linha de luz Rossendorf, um síncrotron. O feixe de raios X, focado em 100 micrômetros (mais ou menos a espessura de um fio de cabelo), atravessou cada partícula, que foi girada por completo e medida de 2.000 ângulos diferentes.
Três tipos de partícula
Segundo o texto, os fragmentos do acidente se dividem em três classes: partículas parecidas com o dióxido de urânio, que é o combustível nuclear; partículas parcial ou totalmente envolvidas por zircônio, ou fundidas a ele, formadas quando o combustível derretido se misturou ao revestimento de zircônio; e partículas formadas quando o grafite usado como moderador pegou fogo. O grafite queimou por dez dias e oxidou o combustível em vários óxidos de urânio, como o U3O8, que são mecanicamente frágeis e podem se quebrar em fragmentos microscópicos que o vento carrega.
O que surpreendeu
A suposição era que esses resíduos liberariam substâncias radioativas com relativa rapidez. Não foi o que apareceu nas seis partículas: o combustível manteve boa parte da estrutura cristalina original depois de cerca de quatro décadas no ambiente, e elas parecem capazes de reter produtos de fissão na própria estrutura em vez de soltá-los rápido. Se isso for comum, pode limitar a dispersão de contaminantes no solo e na água.
O que isso não quer dizer
Os próprios autores são cautelosos. A amostra é pequena, de seis partículas e dois locais, e "cada partícula tem uma estrutura diferente", diz Weissenborn (falas em tradução livre). Mesmo com mais dados, segundo Weissenborn, não seria possível fazer afirmações universais sobre riscos à saúde na região, e "sempre haverá partículas atípicas, mais persistentes, que vão liberar radionuclídeos mais tarde".
Também não se sabe ao certo por que as partículas se degradam em velocidades diferentes, e o desgaste pelo tempo pode gerar várias formas de óxido de urânio, o que dificulta prever o comportamento de longo prazo. O resultado não mostra que a contaminação de Chernobil esteja se tornando inofensiva, nem sugere que as restrições à Zona de Exclusão possam ser suspensas em breve. Weissenborn e Hennig seguem com experimentos em fases transurânicas altamente radioativas dos resíduos restantes.
Para entender o contexto
O acidente de Chernobil, na Ucrânia, aconteceu em 26 de abril de 1986, quando o reator 4 da usina explodiu e liberou material radioativo que se espalhou por boa parte da Europa. Em volta da usina foi criada uma zona de exclusão, que continua restrita até hoje, e uma grande estrutura de contenção cobre os restos do reator.
Entender como o material liberado se comporta décadas depois ajuda a prever por quanto tempo o solo e a água podem carregar contaminação. Isso vale também para decisões sobre onde é seguro viver e produzir alimentos, e para o planejamento de limpezas em outros locais com histórico de contaminação nuclear.
Termos úteis
- Meia-vida: Tempo para que metade dos átomos de um elemento radioativo se transforme. O césio-137, por exemplo, tem meia-vida de cerca de 30 anos.
- Partícula quente: Fragmento microscópico de combustível ou de material do reator que concentra radioatividade e fica no solo.
- Zona de exclusão: Área ao redor da usina com acesso e ocupação restritos por causa da contaminação.
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