Amostras de Bennu apontam origem "híbrida" e levam a uma hipótese sobre o papel de Júpiter
Análises de isótopos mostram que Bennu, Ryugu e meteoritos raros têm a mesma impressão digital química. O cenário sobre Júpiter é uma proposta dos autores, não uma conclusão definitiva.
O asteroide Bennu, de onde a missão OSIRIS-REx, da NASA, trouxe amostras em 2023, é um "híbrido": o material não combina claramente nem com o Sistema Solar interno nem com o externo, diz Maria Schönbächler, da ETH Zurique (geoquímica isotópica). A conclusão vem de análises de isótopos de ferro, titânio e cromo, que funcionam como impressões digitais químicas para identificar de onde vêm os materiais.
O estudo saiu na revista Science Advances (2026, vol. 12, nº 39), com o título, em tradução livre, "Restrições nucleossintéticas sobre a origem de Bennu e de asteroides do tipo CI", e é assinado por Schönbächler e outros 15 pesquisadores da ETH Zurique e de outras instituições. O laboratório de Schönbächler recebeu meio grama de material de Bennu.
A missão e as amostras
A OSIRIS-REx coletou material da superfície de Bennu e entregou as amostras à Terra em 2023: a cápsula, com cerca de 120 gramas, pousou no deserto de Utah em 23 de setembro de 2023. Bennu dá uma volta em torno do Sol a cada 1,2 ano e se aproxima da Terra a cada seis anos, a cerca de 300 mil km.
O que as impressões digitais mostram
O ferro e o titânio estão distribuídos de forma bastante uniforme no material. Bennu, o asteroide Ryugu e os meteoritos do tipo CI (raros, ricos em carbono e pouco alterados) têm assinaturas isotópicas muito parecidas, o que sugere uma origem comum em um mesmo reservatório de poeira cósmica antiga. Essas assinaturas são bem diferentes das de outros asteroides, de outros grupos de meteoritos e dos planetas conhecidos.
A hipótese sobre Júpiter
Para explicar isso, os autores propõem que o material tenha se acumulado perto da "linha de gelo de água", a região do disco que deu origem ao Sistema Solar em que o vapor d'água congelava. Poeira das regiões interna e externa teria se misturado ali, com o gelo ajudando partículas minúsculas a se juntar. Júpiter teria papel central: formado muito cedo, em até cerca de 1 milhão de anos depois do nascimento do Sol, funcionaria como barreira que impedia a passagem de partículas maiores, mas deixava a poeira fina circular e se misturar. Essa poeira fina teria preservado uma composição muito parecida com a média de elementos do Sol. "Bennu pode oferecer o melhor vislumbre da mistura original de elementos químicos", diz Schönbächler (tradução livre).
Para entender o contexto
Bennu é um asteroide próximo da Terra, rico em carbono, visitado pela sonda OSIRIS-REx, da NASA, que coletou uma amostra em 2020 e a trouxe à Terra em setembro de 2023. O Ryugu, outro asteroide do mesmo tipo, foi amostrado pela sonda japonesa Hayabusa2, que entregou o material em dezembro de 2020. Trazer amostras diretamente, sem passar pela atmosfera como os meteoritos, evita a contaminação e deixa os cientistas lerem a composição original.
Comparar a assinatura de isótopos, versões do mesmo elemento com massas diferentes, é um dos jeitos de saber de onde veio o material de um corpo do Sistema Solar. Se asteroides como Bennu e Ryugu compartilham a mesma "impressão digital", isso sugere uma origem comum, e o papel de Júpiter no embaralhamento do material do Sistema Solar jovem é uma hipótese que ainda precisa de confirmação.
Termos úteis
- Asteroide carbonáceo: Asteroide escuro e rico em carbono, considerado um remanescente primitivo do Sistema Solar.
- Isótopo: Versão de um elemento com o mesmo número de prótons e massa diferente, usada para rastrear a origem do material.
- Meteorito: Fragmento de um corpo espacial que sobrevive à passagem pela atmosfera e cai na Terra.
As ressalvas
O cenário da origem e do papel de Júpiter é uma proposta, não uma conclusão definitiva, e o texto diz que os achados não estabelecem exatamente como esses materiais chegaram à Terra: apenas indicam de onde vieram os ingredientes e como foram distribuídos. Seguem em aberto se outros asteroides têm a mesma assinatura de Bennu e Ryugu, como Júpiter influenciou com precisão o movimento da poeira e se sua gravidade favoreceu o acúmulo de partículas finas.
Entre os próximos passos está a missão japonesa JAXA a Fobos, lua de Marte, com lançamento previsto para o fim de outubro de 2026 e retorno da cápsula só em 2031; Schönbächler pretende pedir acesso às amostras. Bennu contém minerais com água e compostos orgânicos, o que interessa para entender como a Terra primitiva obteve ingredientes químicos para a vida.
Gostou? Receba as próximas.
As histórias que não chegam em português, uma vez por semana, em 3 minutos de leitura. Sem spam.
Ao assinar, você concorda em receber a newsletter (com confirmação e link para sair em todo envio) e, conforme a política de privacidade, com o uso dos seus dados para medição e anúncios.