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Ciência

Amostras de Bennu apontam origem "híbrida" e levam a uma hipótese sobre o papel de Júpiter

Análises de isótopos mostram que Bennu, Ryugu e meteoritos raros têm a mesma impressão digital química. O cenário sobre Júpiter é uma proposta dos autores, não uma conclusão definitiva.

Por Redação Watermouse Media31 de outubro de 20265 min de leitura
Mosaico do asteroide Bennu, um corpo escuro em forma de pião coberto de rochas, sobre fundo preto
Mosaico do asteroide Bennu, montado com imagens da sonda OSIRIS-REx. Imagem ilustrativa. Crédito: NASA/Goddard/Universidade do Arizona (domínio público).

O asteroide Bennu, de onde a missão OSIRIS-REx, da NASA, trouxe amostras em 2023, é um "híbrido": o material não combina claramente nem com o Sistema Solar interno nem com o externo, diz Maria Schönbächler, da ETH Zurique (geoquímica isotópica). A conclusão vem de análises de isótopos de ferro, titânio e cromo, que funcionam como impressões digitais químicas para identificar de onde vêm os materiais.

O estudo saiu na revista Science Advances (2026, vol. 12, nº 39), com o título, em tradução livre, "Restrições nucleossintéticas sobre a origem de Bennu e de asteroides do tipo CI", e é assinado por Schönbächler e outros 15 pesquisadores da ETH Zurique e de outras instituições. O laboratório de Schönbächler recebeu meio grama de material de Bennu.

A missão e as amostras

A OSIRIS-REx coletou material da superfície de Bennu e entregou as amostras à Terra em 2023: a cápsula, com cerca de 120 gramas, pousou no deserto de Utah em 23 de setembro de 2023. Bennu dá uma volta em torno do Sol a cada 1,2 ano e se aproxima da Terra a cada seis anos, a cerca de 300 mil km.

O que as impressões digitais mostram

O ferro e o titânio estão distribuídos de forma bastante uniforme no material. Bennu, o asteroide Ryugu e os meteoritos do tipo CI (raros, ricos em carbono e pouco alterados) têm assinaturas isotópicas muito parecidas, o que sugere uma origem comum em um mesmo reservatório de poeira cósmica antiga. Essas assinaturas são bem diferentes das de outros asteroides, de outros grupos de meteoritos e dos planetas conhecidos.

A hipótese sobre Júpiter

Para explicar isso, os autores propõem que o material tenha se acumulado perto da "linha de gelo de água", a região do disco que deu origem ao Sistema Solar em que o vapor d'água congelava. Poeira das regiões interna e externa teria se misturado ali, com o gelo ajudando partículas minúsculas a se juntar. Júpiter teria papel central: formado muito cedo, em até cerca de 1 milhão de anos depois do nascimento do Sol, funcionaria como barreira que impedia a passagem de partículas maiores, mas deixava a poeira fina circular e se misturar. Essa poeira fina teria preservado uma composição muito parecida com a média de elementos do Sol. "Bennu pode oferecer o melhor vislumbre da mistura original de elementos químicos", diz Schönbächler (tradução livre).

Para entender o contexto

Bennu é um asteroide próximo da Terra, rico em carbono, visitado pela sonda OSIRIS-REx, da NASA, que coletou uma amostra em 2020 e a trouxe à Terra em setembro de 2023. O Ryugu, outro asteroide do mesmo tipo, foi amostrado pela sonda japonesa Hayabusa2, que entregou o material em dezembro de 2020. Trazer amostras diretamente, sem passar pela atmosfera como os meteoritos, evita a contaminação e deixa os cientistas lerem a composição original.

Comparar a assinatura de isótopos, versões do mesmo elemento com massas diferentes, é um dos jeitos de saber de onde veio o material de um corpo do Sistema Solar. Se asteroides como Bennu e Ryugu compartilham a mesma "impressão digital", isso sugere uma origem comum, e o papel de Júpiter no embaralhamento do material do Sistema Solar jovem é uma hipótese que ainda precisa de confirmação.

Termos úteis

  • Asteroide carbonáceo: Asteroide escuro e rico em carbono, considerado um remanescente primitivo do Sistema Solar.
  • Isótopo: Versão de um elemento com o mesmo número de prótons e massa diferente, usada para rastrear a origem do material.
  • Meteorito: Fragmento de um corpo espacial que sobrevive à passagem pela atmosfera e cai na Terra.

As ressalvas

O cenário da origem e do papel de Júpiter é uma proposta, não uma conclusão definitiva, e o texto diz que os achados não estabelecem exatamente como esses materiais chegaram à Terra: apenas indicam de onde vieram os ingredientes e como foram distribuídos. Seguem em aberto se outros asteroides têm a mesma assinatura de Bennu e Ryugu, como Júpiter influenciou com precisão o movimento da poeira e se sua gravidade favoreceu o acúmulo de partículas finas.

Entre os próximos passos está a missão japonesa JAXA a Fobos, lua de Marte, com lançamento previsto para o fim de outubro de 2026 e retorno da cápsula só em 2031; Schönbächler pretende pedir acesso às amostras. Bennu contém minerais com água e compostos orgânicos, o que interessa para entender como a Terra primitiva obteve ingredientes químicos para a vida.

Fonte: com base em comunicado da ETH Zurique divulgado pelo ScienceDaily sobre estudo publicado na Science Advances (2026, DOI 10.1126/sciadv.aei9107). Cobertura original da Watermouse Media, com contexto para o leitor brasileiro. Os fatos são atribuídos à fonte; o texto não é uma tradução.

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