Fornos de tijolos mais limpos em Bangladesh cortam poluição, mas os ganhos não chegaram aos trabalhadores
Mudanças simples na operação reduziram o uso de energia em cerca de 10,5%. Mas um segundo estudo, com 1.442 trabalhadores, não achou melhora em salários, saúde, trabalho infantil ou tráfico de pessoas.
Bangladesh é o quarto maior produtor de tijolos do mundo, e cerca de 8.000 fornos tradicionais abastecem mais de 90% do consumo do país. Um conjunto de estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de Michigan, de Stanford e do centro icddr,b, de Bangladesh, mostra que mudanças baratas na operação desses fornos reduzem energia e poluição, mas que isso, por si só, não melhorou a vida de quem trabalha neles. A divulgação é da Universidade de Michigan, republicada pelo Phys.org em 24 de outubro de 2026.
Entre os pesquisadores estão Nina Brooks, da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Michigan, Grant Miller, de medicina em Stanford e primeira autoria do estudo trabalhista, publicado na PNAS (2026, DOI 10.1073/pnas.2528388123), Sameer Maithel, principal especialista técnico da equipe, e Mohammad Saeed Munim, do icddr,b. O estudo ambiental saiu na Science, sem data informada no texto.
O que mudou nos fornos
A intervenção foi de baixo custo e sem trocar o forno: alimentar o carvão de forma mais contínua, reempilhar os tijolos para melhorar a circulação de ar e reduzir a perda de calor, com treinamento e apoio técnico. Nos fornos que receberam a intervenção, o uso de energia caiu cerca de 10,5%, com redução estimada de 171 toneladas de CO2 e de cerca de 0,45 tonelada de material particulado (PM2,5) por forno por temporada. Entre os fornos que de fato adotaram as práticas, a energia caiu cerca de 23% e CO2 e PM2,5, cerca de 20%.
Os donos gastaram menos com combustível (queda de 9,6%) e produziram mais tijolos de boa qualidade (alta de 8,1%), e a adoção continuou e aumentou na temporada seguinte. O contexto: a poluição do ar ambiente causa 4,9 milhões de mortes prematuras no mundo, 32% delas no sul da Ásia.
O que aconteceu com os trabalhadores
O estudo trabalhista cobriu 246 fornos na divisão de Khulna e entrevistou, em particular, 1.442 trabalhadores. Setenta por cento não tinham equipamento de proteção, 71% não tinham contrato formal e 42% relataram liberdade limitada de movimento ou de comunicação. Em quase metade dos fornos, pelo menos 1 em cada 6 trabalhadores se enquadrava nas definições de tráfico de pessoas para trabalho do Departamento de Estado dos EUA, e o índice geral foi de cerca de 20%. Adultos relataram trabalho infantil em mais de 70% dos fornos, sobretudo de crianças de 14 a 17 anos.
O resultado central: apesar dos ganhos de produtividade, não houve melhora mensurável em tráfico, trabalho infantil, salários, saúde ou condições de trabalho durante o período do estudo. Segundo os autores, em mercados de trabalho marcados por coerção e pouco poder de barganha, não dá para supor que os ganhos de produtividade cheguem aos trabalhadores, e a lei é difícil de fazer cumprir em setores informais. "Não podemos contar só com ganhos de produtividade para isso, pelo menos não no curto prazo", diz Miller (tradução livre).
O que vem agora, e as ressalvas
Mudar os fornos de lugar, longe de escolas e unidades de saúde, não é viável em um país tão populoso, diz Brooks. A equipe testa agora medidas voltadas aos trabalhadores: equipamentos de proteção (máscaras, óculos, calçados e proteção para a cabeça), saneamento e cozinha, áreas de descanso com sombra, água limpa, conscientização sobre estresse térmico e informação sobre trabalho infantil. A maioria dos donos entrevistados não se opôs e viu os custos como pequenos, embora alguns discordem de partes específicas.
Os efeitos sobre os trabalhadores foram medidos só no curto prazo, e ampliar a escala é lento e complexo por causa da informalidade e do apoio técnico desigual. A adoção é menor na região de Dacca do que em Khulna, embora os efeitos sejam parecidos entre quem adotou, e esses resultados seguem em pesquisa.
Para entender o contexto
Fornos de tijolo queimam carvão, lenha ou outros combustíveis e estão entre as maiores fontes de poluição do ar no Sul da Ásia, onde Bangladesh produz bilhões de tijolos por ano para uma construção civil em rápida expansão. A fumaça tem fuligem e partículas finas que prejudicam a saúde de quem vive perto e, principalmente, de quem trabalha ali.
O setor também é conhecido por condições duras de trabalho, como jornadas longas, dívidas que prendem famílias ao emprego e trabalho de crianças. Por isso é relevante o achado de que uma melhoria técnica reduziu a poluição sem melhorar a vida dos trabalhadores: tecnologia limpa não resolve sozinha problemas de renda e de direitos. O Brasil também tem olarias artesanais com problemas semelhantes de poluição e informalidade.
Termos úteis
- Material particulado: Partículas muito pequenas no ar, como a fuligem, que entram nos pulmões e prejudicam a saúde.
- Eficiência energética: Capacidade de produzir o mesmo resultado gastando menos energia.
- Servidão por dívida: Situação em que uma pessoa trabalha para pagar uma dívida que não consegue quitar.
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