Ave de 150 milhões de anos tinha dentes de dinossauro e provavelmente não voava
A Yuezhuornis yangyuanensis, achada na China, seria o caso mais antigo conhecido de uma linhagem de aves que perdeu o voo. Isso é inferido das proporções do corpo, não visto diretamente.
Uma ave do Jurássico Superior, de cerca de 150 a 148 milhões de anos e do tamanho de um corvo, tinha dentes de dinossauro e provavelmente não conseguia voar. A espécie, Yuezhuornis yangyuanensis, foi achada na chamada fauna de Zhenghe, na província de Fujian, no sudeste da China, e descrita em estudo do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados (IVPP), da Academia Chinesa de Ciências, e do Instituto de Ciências Geológicas de Fujian. O artigo, de Liming Xu, Min Wang, Zhonghe Zhou e outros, saiu na Nature (2026, vol. 658, nº 8136, p. 690, DOI 10.1038/s41586-026-10972-z) com o título "Jurassic flightless bird reveals early ecological diversity of avialans".
Um bico de ave, dentes de dinossauro
Os dentes são juntos e serrilhados, parecidos com os dos deinonicossauros, dinossauros carnívoros aparentados das aves, um tipo de dente incomum em aves primitivas. O segundo dedo do pé consegue se dobrar para trás de forma incomum e tem uma garra curva, em forma de foice, associada a dromeossaurídeos e troodontídeos. Já a pelve e os membros traseiros lembram os de aves.
Onde ela se encaixa, e por que o "sem voo"
A análise a coloca dentro dos Avialae, o grupo das aves modernas e seus parentes extintos mais próximos, logo acima do Archaeopteryx e como grupo irmão de Zhengheornis. As proporções dos membros lembram as de aves modernas que vivem no chão e as de dinossauros próximos das aves, o que leva os autores a concluir que a espécie provavelmente passava a vida no solo e não conseguia voar. Os cientistas acreditam que seja o caso mais antigo conhecido de uma linhagem de aves que perdeu o voo.
Os métodos citados são a máxima parcimônia e a análise bayesiana com datação dos táxons (tip-dating), para posicionar a espécie na árvore evolutiva, além de medidas das proporções do esqueleto e comparações estatísticas com outros animais para inferir como ela se movia.
O que isso muda, e as ressalvas
Para os autores, a evolução das aves não foi um processo simples e em linha reta rumo a voar melhor: as primeiras aves já exploravam vários papéis ecológicos e formas de corpo, e a fauna de Zhenghe ajuda a estudar um período pouco compreendido. "A evolução inicial das aves foi muito mais complicada do que imaginávamos", diz Min Wang (tradução livre).
Mas a falta de voo é inferida das proporções dos membros e de comparações estatísticas, sem evidência direta, e o texto usa expressões como "parece", "provavelmente" e "sugere". A divulgação também não informa o número de espécimes analisados nem medidas exatas.
Para entender o contexto
As aves descendem de dinossauros terópodes, e os fósseis mais antigos de aves e de seus parentes próximos têm cerca de 150 milhões de anos, do final do Jurássico. O mais famoso é o Archaeopteryx, achado na Alemanha, com penas, asas e dentes. Na China, a região de Liaoning e outras formações trouxeram centenas de fósseis de aves primitivas e de dinossauros com penas.
Perder a capacidade de voar aconteceu várias vezes na história das aves, como nas avestruzes, emas e pinguins. Dizer que uma ave antiga não voava, a partir das proporções do corpo, é uma inferência: sem observar o animal vivo, os cientistas comparam o tamanho das asas e dos ossos com os de aves atuais.
Termos úteis
- Terópode: Grupo de dinossauros que andavam sobre dois pés e inclui o ancestral das aves.
- Jurássico: Período da Era dos Dinossauros, de cerca de 201 a 145 milhões de anos atrás.
- Ave não voadora: Ave que perdeu, ao longo da evolução, a capacidade de voar.
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